Este já é velhote... só para recordar.
De mãos dadas, demos a volta ao Mundo.
Cruzámos fronteiras,
Atravessámos rios,
Passámos sinais vermelhos ao lado da passadeira.
De mãos dadas, de olhos postos,
Fomos um só.
E valíamos por mil.
***
A princípio estava tudo muito tremido...
Tu ainda não estavas recomposto do terramoto que,
Num repente, te tinha avassalado o coração,
E eu, ainda não tinha pousado, com medo
Que a terra me fugisse de debaixo dos pés...
Mas experimentámos dar as mãos...
E o resto aconteceu.
Tu recuperaste do terramoto,
E eu finalmente pousei...
Ao ver que o chão não fugia, arrisquei;
Pedi ingenuamente:
"Deixas-me amar-te?"
Ao que me respondeste com um sorriso de luar-de-prata........
Considerei um sim.
E amei-te.
Com o brilho de mil Sóis,
Com a força de mil Luas;
amei-te...
Até que, um dia, os Sóis e as Luas deixaram de brilhar
e de ter força.....
E nada era suficiente.
Podíamos dar as mãos com muita força,
Que já não aconteciam maravilhas.
Podíamos bater as asas com todo o entusiasmo,
Que já não levantávamos voo.
Foi a tua vez de me pedires:
"Ama-me..."
E de eu te responder com um sorriso de luar:
"Não consigo..."
E foi a última vez que te sorri.
*
(De mãos dadas, demos a volta ao Mundo.
Cruzámos fronteiras,
Atravessámos rios,
Passámos sinais vermelhos ao lado da passadeira.
De mãos dadas, de olhos postos,
Fomos um só.
E valíamos por mil.)
28.2.05
23.2.05
Decorei a tua boca num momento em que o vento e a noite andavam de mãos dadas e, desde então, a tua luz não me deixou - a não ser quando quiseste que a minha se apagasse. Desde então, os meus sonhos foram os teus sonhos e o meu percurso, o teu caminho. Desde então, a sombra que instalaste em mim prendeu-me aos dias de tal maneira que deixei de ansiar por metas onde não estivesses, deixei de me olhar para olhar apenas para onde me sorrisses, amar passou a fazer parte de mim mesmo todas as vezes que não o quis. Amo-te, sei-o agora, porque o meu coração não conhece outro nome senão o teu, porque o meu coração só responde à tua voz. Amo-te pelo sentido que dás a tudo, pelo que seria sem ti, pelos sorrisos que solto quando me obrigas a esquecer-me de mim, pelas lágrimas que afogo quando nos finjo menos eu. Amo-te, desde que vi as estrelas nos teus olhos sem que elas alguma vez tivessem lá estado, desde que as nossas mãos juntas nos fazem ver que não há tempo para mais nada - amar é urgente, sonhar é urgente, é urgente saber sorrir quando um sorriso não basta. Amo-te porque a minha alma pertence à tua, porque o meu peito não acalma nunca noutro abraço e sem a tua voz tudo é silêncio e ensurdece, amo-te porque estou destinada a ter sempre os teus braços como abrigo e o teu sorriso como luz, amo-te com a força de um beijo à chuva, de um segredo ao pôr-do-sol, amo-te porque a complexidade da palavra não chega para gritar ao Mundo, em desespero, a minha ânsia de te viver.
Amo-te, sei-o agora, porque nunca vou poder esquecer-te.
Amo-te, sei-o agora, porque nunca vou poder esquecer-te.
10.2.05
Não posso ignorar que os nossos caminhos se cruzaram uma vez, para sempre. Não sei esquecer todos os momentos, todos os sorrisos, todas as palavras que ficam sempre por dizer, como deixar partir uma parte significativa de tudo o que fomos, como apagar as lições (des)aprendidas nas tuas mãos?
Não é preciso esquecer, não é preciso matar um grande amor ainda que ele nos mate um pouco, afinal, "a maior solidão é a do ser que não ama"... Ou a do ser que, mesmo quando ama, está sozinho, mesmo quando rodeado de pessoas, se sente só. E eu sempre me senti só, contigo.
Por agora (talvez só por agora...), fico aqui, onde mesmo connosco tento não estar só, onde tento não matar um grande amor que me mata um pouco de vez em quando, sem o qual eu sei que morria de vez, outra vez, por dentro.
Não é preciso esquecer, não é preciso matar um grande amor ainda que ele nos mate um pouco, afinal, "a maior solidão é a do ser que não ama"... Ou a do ser que, mesmo quando ama, está sozinho, mesmo quando rodeado de pessoas, se sente só. E eu sempre me senti só, contigo.
Por agora (talvez só por agora...), fico aqui, onde mesmo connosco tento não estar só, onde tento não matar um grande amor que me mata um pouco de vez em quando, sem o qual eu sei que morria de vez, outra vez, por dentro.
3.2.05
Ainda as lembranças de nós que me ladeiam os ombros num final de tarde tão ameno como outro qualquer, ainda os restos de ti que me aquecem o colo e me fazem sorrir, mesmo que um sorriso já não faça parte dos meus planos, não por agora. Não se a tua imagem de anjo me abandonou de vez, outra vez, pelo menos aparentemente. Não quando no meu rasto só se vêem pedaços de nós. Não vês que é suposto eu já não saber sorrir...? É suposto ter a minha Lua do meu lado, só, só ela me reconfortar, o normal seria não mais ver a tua mão estendida para mim, não mais acreditar que, às vezes, a vida ainda me corre ao sol... Os anjos já não existiam, não para mim, já não havia palavras que me servissem de prece nem olhos que me oferecessem sonhos, a tua luz já só fingia um ponto na escuridão.
E agora...? Que eu já sabia querer ser só e que os segredos que desfolhava já eram só meus...? E agora, que voltas como anjo que talvez nunca tenhas sido mas em que sempre acreditei? (se era a tua mão que via sempre - a mesma que me empurrava...) Que faço eu agora, que sei que os nossos caminhos se cruzaram uma vez, para sempre, que sei que tudo em meu redor respira o que resta de nós, que sei que a minha luz se apaga quando a tua não quer estar por perto...?
Eu fico, mais uma vez (talvez de vez...), sei que vou continuar a fingir aceitar o teu papel de anjo mal interpretado, a tua mão o tempo todo a estender-se depois de me empurrar, eu a tentar fugir da minha corrida constante para a desilusão e a fazer de conta que às vezes, só às vezes, a vida ainda me corre ao sol...
E agora...? Que eu já sabia querer ser só e que os segredos que desfolhava já eram só meus...? E agora, que voltas como anjo que talvez nunca tenhas sido mas em que sempre acreditei? (se era a tua mão que via sempre - a mesma que me empurrava...) Que faço eu agora, que sei que os nossos caminhos se cruzaram uma vez, para sempre, que sei que tudo em meu redor respira o que resta de nós, que sei que a minha luz se apaga quando a tua não quer estar por perto...?
Eu fico, mais uma vez (talvez de vez...), sei que vou continuar a fingir aceitar o teu papel de anjo mal interpretado, a tua mão o tempo todo a estender-se depois de me empurrar, eu a tentar fugir da minha corrida constante para a desilusão e a fazer de conta que às vezes, só às vezes, a vida ainda me corre ao sol...
27.1.05
As ilusões não duram
Era o silêncio que me fazia esquecer de ti. O silêncio das palavras, das palavras escritas. O silêncio da memória, da apatia. Era o esconder-te dos outros como se negasse um passado, como se cegasse as recordações. Era o nunca falar de ti, o nunca pronunciar o teu nome.
Foi o silêncio que contive durante a nossa relação. Foi o facto de nunca ter contado aos meus amigos da tua existência, foi esse tempo de felicidade que fui contendo, que fui guardando na minha boca feita túmulo. Foi eu esperar que o nosso amor fosse sólido, que fosse inquebrantável e insuspeito. Foi essa ilusão de que iria ser perfeito, de que iria ser único que montou o meu silêncio num teatro sem palco.
Mas o silêncio não durou na tua boca, nem o silêncio nem a ilusão, e uma simples palavra tua despontou uma discórdia que ainda hoje julgava impossível. Uma simples palavra, uma simples faca. Uma adaga que desmontou todo o teu teatro, todo o cenário que montaste numa peça para eu ser o bôbo-das-cortes, o palhaço a que daria corpo e voz de protagonista. Mas eu soube guardar o silêncio na minha boca, guardar o público que necessitavas só para mim. E é nesse silêncio que eu guardo só para mim, nesse silêncio que nunca ousaste compreender, que te fará desvanecer e fundir com a bruma num dia vulgar, num dia tão banal quanto tu.
Foi o silêncio que contive durante a nossa relação. Foi o facto de nunca ter contado aos meus amigos da tua existência, foi esse tempo de felicidade que fui contendo, que fui guardando na minha boca feita túmulo. Foi eu esperar que o nosso amor fosse sólido, que fosse inquebrantável e insuspeito. Foi essa ilusão de que iria ser perfeito, de que iria ser único que montou o meu silêncio num teatro sem palco.
Mas o silêncio não durou na tua boca, nem o silêncio nem a ilusão, e uma simples palavra tua despontou uma discórdia que ainda hoje julgava impossível. Uma simples palavra, uma simples faca. Uma adaga que desmontou todo o teu teatro, todo o cenário que montaste numa peça para eu ser o bôbo-das-cortes, o palhaço a que daria corpo e voz de protagonista. Mas eu soube guardar o silêncio na minha boca, guardar o público que necessitavas só para mim. E é nesse silêncio que eu guardo só para mim, nesse silêncio que nunca ousaste compreender, que te fará desvanecer e fundir com a bruma num dia vulgar, num dia tão banal quanto tu.
21.1.05
20.1.05
A verdade mórbida nas palavras...
Sorriste. Sorriste, e bastou um sorriso. A ironia nos teus olhos brilhou sem hesitar, a voz a que me habituei clareou e veio ao meu encontro:
- Acho isso tudo muito exacto. Será que à noite a vida também não escurece? Será que o resto do mundo também não adormece? Como é que sabemos, se estamos a dormir...?
- Já te disse...
- Explica-me outra vez.
E eu recomecei, a nossa história toda de novo, a canção com que te embalava e à relatividade dos sonhos, expliquei-te mais uma vez como tudo não tem de ter um fim pois há coisas que nunca entendemos. Fingias perceber, o olhar sempre fixo na canção que me saía dos lábios, não estávamos sós mas o mundo não existia ali. Nada nos perturbava ou à paz que reflectíamos nesses momentos. Nada que nos importunasse o suficiente os sonhos que desfiávamos a dois, que estragasse a perfeição do nosso paralelismo. Nem eu. Que a vida por vezes dói é um facto, mas que o tempo mata de culpa... quem o explica, agora a mim? Os minutos que passei a contar-te minuciosamente como as coisas acontecem, só para ter o prazer puro de me ouvires e acreditares, as horas que gastámos a olhar o pôr-do-sol, como se dali viesse alguma verdade. A verdade? A verdade, dizias tu, é muito relativa. Ainda me lembro...
- A verdade é muito relativa. Mas sabes o que é pior? É quando o que nos dizem e nos cai mesmo mal é verdade.
- É... - murmurava eu - Há algo de mórbido na verdade das palavras...
- Acho isso tudo muito exacto. Será que à noite a vida também não escurece? Será que o resto do mundo também não adormece? Como é que sabemos, se estamos a dormir...?
- Já te disse...
- Explica-me outra vez.
E eu recomecei, a nossa história toda de novo, a canção com que te embalava e à relatividade dos sonhos, expliquei-te mais uma vez como tudo não tem de ter um fim pois há coisas que nunca entendemos. Fingias perceber, o olhar sempre fixo na canção que me saía dos lábios, não estávamos sós mas o mundo não existia ali. Nada nos perturbava ou à paz que reflectíamos nesses momentos. Nada que nos importunasse o suficiente os sonhos que desfiávamos a dois, que estragasse a perfeição do nosso paralelismo. Nem eu. Que a vida por vezes dói é um facto, mas que o tempo mata de culpa... quem o explica, agora a mim? Os minutos que passei a contar-te minuciosamente como as coisas acontecem, só para ter o prazer puro de me ouvires e acreditares, as horas que gastámos a olhar o pôr-do-sol, como se dali viesse alguma verdade. A verdade? A verdade, dizias tu, é muito relativa. Ainda me lembro...
- A verdade é muito relativa. Mas sabes o que é pior? É quando o que nos dizem e nos cai mesmo mal é verdade.
- É... - murmurava eu - Há algo de mórbido na verdade das palavras...
16.1.05
A dor de abrir os olhos e ver que tudo continua igual, de perceber que, afinal, as palavras valem mais do que as acções, a dor de te trazer comigo um pouco mais no caminho que nunca chega onde espero, como cansa já ninguém me embalar os sonhos que perdi...
Por que é que a vida me dói assim, por que ninguém me vê nem percebe que tudo o que desfio no papel é o que sinto, ninguém crê, porque é que nem tu, antes tudo (e agora?), vês a sério e acreditas, será possível que ninguém veja como aguento os dias no limite do cansaço enquanto espero pela noite? - estou exausta.
És o único que ainda me olha um pouco da alma, vê-me, ainda que não vejas como me desiludo a cada final (agora já só vejo os finais...), és a única réstia de luz que por (cada vez mais) breves momentos me faz sorrir a sério (já não sei...), por isso peço-te, volto a pedir-te (ainda que não me ouças), despe essa imagem de anjo com que ainda te trago (mesmo agora, que já a sei falsa) se não me vais ajudar, ou estende-me a mão de vez, o melhor que puderes, antes que a tua voz deixe de ser o fio que me ata ainda aos dias, agora que já te disse como a vida me dói - mesmo por nada...
Não te esqueças de mim.
Por que é que a vida me dói assim, por que ninguém me vê nem percebe que tudo o que desfio no papel é o que sinto, ninguém crê, porque é que nem tu, antes tudo (e agora?), vês a sério e acreditas, será possível que ninguém veja como aguento os dias no limite do cansaço enquanto espero pela noite? - estou exausta.
És o único que ainda me olha um pouco da alma, vê-me, ainda que não vejas como me desiludo a cada final (agora já só vejo os finais...), és a única réstia de luz que por (cada vez mais) breves momentos me faz sorrir a sério (já não sei...), por isso peço-te, volto a pedir-te (ainda que não me ouças), despe essa imagem de anjo com que ainda te trago (mesmo agora, que já a sei falsa) se não me vais ajudar, ou estende-me a mão de vez, o melhor que puderes, antes que a tua voz deixe de ser o fio que me ata ainda aos dias, agora que já te disse como a vida me dói - mesmo por nada...
Não te esqueças de mim.
14.1.05
O desafio da verdade
Barbara chamava-lhe o Jogo das 25. Ela gostava muito de brincar, de fingir, de criar brincicadeiras de teatro e encenações de todas as espécies. Mas Barbara detestava a mentira, detestava-a de uma forma quase fóbica, mórbida. De uma forma quase destruidora que por uma vez custou a nossa relação. Barbara detestava a mentira desde que o pai a abandonara durante um fim de semana em que lhe prometera que quando voltasse a levaria a comer um gelado. Barbara nunca mais comeu um. o Jogo das 25 tinha regras simples: cada um de nós tinha direito a 25 perguntas; não valia mentir; podia-se não responder a uma única pergunta. Era um jogo perigoso? Um jogo de vida ou morte? Não, era um jogo de tudo ou nada. E Barbara queria tudo, queria entrar na minha vida, espreitar pela minha alma, estar cá dentro. Metia medo. O mesmo medo que Barbara tinha de mim, do que eu quisesse fazer, do que eu pudesse fazer à sua vida. Barbara queria controlo, da vida dela, da minha, como se eu pudesse sair de cena de um momento para o outro. Tenho pena de só ter chegado às 12 perguntas e de termos interrompido tudo entre beijos e lágrimas que pendiam da face como rios. Tinhamos vinte anos. A primeira pergunta que Barbara me fez foi se eu estava preparado para o desafio da verdade? Eu disse que sim. Menti, não que eu soubesse que mentia, sei-o apenas hoje, dia em que sei que dificilmente alguém estará preparado para a verdade, para a total verdade numa qualquer relação. A mentira faz parte e não sei se é tão mau ser assim. Hoje não tenho coragem de levantar a bandeira da verdade como um valor absoluto. Porquê que não comes gelados? Foi uma das primeiras perguntas que fiz, Barbara contou-me a história toda da relação dela com o pai, de como se sentiu traida, abandonada. As lágrimas humedeceram os seus olhos de amendôa muito claros, quase transparentes. Foi um discurso de quinze minutos da mais alargada franqueza. Quando desafiamos a verdade, até um banal porquê que não comes gelados pode ser dramático. A verdade dói quando tem de doer, e a verdade raras vezes é pacifica. A verdade é um desafio. E uma loucura. Em doze perguntas, em doze perguntas que duraram quatro horas de confissões de peito aberto, onde tudo nos pareceu mágico e nos uniu os corpos, despedaçamos a nossa naturalidade. E tudo ficou condicionado a não nos percebermos mais de tanto que já sabiámos. Como a sábia Barbara disse um dia, passava o resto da vida a tentar descobrir-te de novo, outra vez.
12.1.05
Outro dia que (não) termina com as minhas lágrimas, com esta quase cantiga que cada vez mais me afoga o peito. Não páro de tentar perceber, será que não vês que desespero por deixar, de vez, a existência, que anseio cada vez mais a noite, e não só aquelas que vêm no final dos dias, será que não percebes que a paz que me davas já não me sossega os gritos que solto sempre em vão? Eu caminho sempre mais para onde não possa sentir, eu tento esconder-me nas palavras mas também as palavras têm armadilhas, se eu pudesse, de vez, fechar as asas que já não me servem de nada...
Vejo agora que nunca me olhaste, no fundo, sempre fingiste ver-me e às minhas lágrimas, como me enganei enquanto esperava a tua mão... Espero agora o meu Deus que talvez venha a chegar, é irónico, sempre te pensei o meu anjo, afinal os anjos já não existem, não para mim.
Ninguém vê o final nos meus olhos, ninguém me ouve - não sei como, se grito por dentro o tempo todo!... Eu só espero silêncio, um silêncio qualquer que me venha calar, por fim, o lamento mas não te quero deixar só, não assim, por isso ouve-me, só desta vez (a última?) - leva-me daqui e apressa-me o tempo, faz de anjo por momentos e eu juro que acredito, se me estenderes a mão eu juro que a agarro, atira-me à cara uma paz qualquer, qualquer noite, mas depressa, antes que se me apaguem os dias, que não tenha mais espaço para a minha dor ou que a minha luz se acabe, de vez - não me queiras perder agora.
Vejo agora que nunca me olhaste, no fundo, sempre fingiste ver-me e às minhas lágrimas, como me enganei enquanto esperava a tua mão... Espero agora o meu Deus que talvez venha a chegar, é irónico, sempre te pensei o meu anjo, afinal os anjos já não existem, não para mim.
Ninguém vê o final nos meus olhos, ninguém me ouve - não sei como, se grito por dentro o tempo todo!... Eu só espero silêncio, um silêncio qualquer que me venha calar, por fim, o lamento mas não te quero deixar só, não assim, por isso ouve-me, só desta vez (a última?) - leva-me daqui e apressa-me o tempo, faz de anjo por momentos e eu juro que acredito, se me estenderes a mão eu juro que a agarro, atira-me à cara uma paz qualquer, qualquer noite, mas depressa, antes que se me apaguem os dias, que não tenha mais espaço para a minha dor ou que a minha luz se acabe, de vez - não me queiras perder agora.
10.1.05
Saudade
Às vezes tenho saudades de te escrever. De te olhar de papel na mão, os olhos verdes e espertos debruçados sobre um abismo de letras, que te deixavam desamparada. Ora pelo desafio de beleza que as palavras te tentavam, ora pela angústia das palavras mais cruas. Era sempre assim, eu escrevia-te cartas como se a caneta fosse um bisturi que abrisse a alma pelo meio do esterno. As visceras e a pele nas tuas mãos. Às vezes era o teu sorriso tímido entre a mão que levavas à boca, noutras o olhar sério sobre a folha que seguravas directo aos meus olhos, como uma interrogação ou um prenúncio de discussão. Quantas vezes não era um brilho nos olhos, que humedecia e brilhava mais ainda... até cair uma lágrima. Lágrimas de emoção, tinhas lágrimas de emoção nos olhos, e raramente choraste. Isso sim, foi a nossa grande poesia. Às vezes tenho saudades de te ver ler as asneiras da minha imaginação, saudades de abrir a janela da alma, de fazer um diário de coisas que soubeste juntar, guardar folha a folha. Às vezes tenhos saudades de ser quem eu era, de ser quem eu para ti fui.
6.1.05
Quero que saibas que me afogo o tempo todo, que sufoco sob o sorriso que esperas, sempre, ver em mim, que grito sempre que me afasto e da minha boca só ouves a breve despedida, que por trás do olhar que te dirijo, confiante, peço-te ajuda, em desespero, sem que nunca nada te pareça forte o suficiente para te despertar os sentidos, para te mover o socorro que nunca me deste ainda que todo o meu corpo to implore violentamente, por dentro. Quero que saibas que nunca exagerei, que te apercebas da força das minhas palavras ainda que só escritas, nunca conseguiste ver (nunca quiseste?) que me saíam, de facto, do peito, do sítio que ninguém pode conhecer porque é tudo o que tenho que é realmente meu. E quero que saibas, sobretudo, que todas as lágrimas que viste foram verdadeiras e que continuarão a cair, que nem sempre me soubeste estender a mão quando precisei, que me sinto só todos os dias e que nunca vais compreender a lentidão com que apago os dias que me doem mais do que tudo.
26.12.04
Se ao menos eu soubesse o outro lado, o caminho de que todos fogem e que tanto anseio, se eu soubesse, por um dia, a paz da inexistência, onde os passos que transpiro seriam nada mais do que passado.
A vida não me apetece, nem outro dia igual neste sítio onde ninguém vê a sombra com que desfilo a cada momento - nem tu, ainda que me passeie com a minha mágoa diante dos teus olhos todo o tempo.
Como é ténue a diferença, a linha que te separa da calma que há tanto espero, como cansa a luta que já não travo em nome da minha esperança aguda. Como queria que a noite caísse mais uma vez, de vez. Já não sei ficar aqui, os fragmentos que antes foram eu já só me afogam o sorriso, tira-me deste sítio onde chove o tempo todo e onde já não tenho espaço para ficar, não há ninguém que me apresse o tempo?, nem tu, nem mesmo tu alguma vez creste a solidez das minhas palavras - não vias que me saíam do peito??
A vida não me apetece, antes morrer nos teus braços esta noite, outra vez...
A vida não me apetece, nem outro dia igual neste sítio onde ninguém vê a sombra com que desfilo a cada momento - nem tu, ainda que me passeie com a minha mágoa diante dos teus olhos todo o tempo.
Como é ténue a diferença, a linha que te separa da calma que há tanto espero, como cansa a luta que já não travo em nome da minha esperança aguda. Como queria que a noite caísse mais uma vez, de vez. Já não sei ficar aqui, os fragmentos que antes foram eu já só me afogam o sorriso, tira-me deste sítio onde chove o tempo todo e onde já não tenho espaço para ficar, não há ninguém que me apresse o tempo?, nem tu, nem mesmo tu alguma vez creste a solidez das minhas palavras - não vias que me saíam do peito??
A vida não me apetece, antes morrer nos teus braços esta noite, outra vez...
23.12.04
Sarcasmo
- Sabes, encontrei-te no outro dia num sonho meu!
- A sério? E que andava eu por lá a fazer?
- Nada... o mesmo de sempre...
- Hum!... E isso é?...
- Continuavas sarcástico como sempre.
- Ah! Há qualidades que não se perdem.
- Aliás, foste sarcástico como nunca tinhas sido...
- Não me digas? Ora, se eu fui sarcástico numa situação que a tua mente imaginou, e de uma forma como nunca antes, minha cara, e sem ser sarcástico, tu ganhas-me aos pontos...
- A sério? E que andava eu por lá a fazer?
- Nada... o mesmo de sempre...
- Hum!... E isso é?...
- Continuavas sarcástico como sempre.
- Ah! Há qualidades que não se perdem.
- Aliás, foste sarcástico como nunca tinhas sido...
- Não me digas? Ora, se eu fui sarcástico numa situação que a tua mente imaginou, e de uma forma como nunca antes, minha cara, e sem ser sarcástico, tu ganhas-me aos pontos...
22.12.04
Tenho o tempo perdido em qualquer dia de nós, saudade de uma noite que nunca vimos chegar; eu não sou tudo. Corro o céu pela mão que me estendes, sempre, mesmo na intempérie fugida que é a dor. Já não sei como te olhar, fantasma do grito que não alcança ninguém, sombra da pele que foi tua num toque, ser só não me preenche as metas que desenho a toda a hora; bastas tu.
Como queria um fim que me servisse, um adeus sem a palavra que me afoga a solidão, a noite, sem ti, já não é a mesma sombra e eu não sei como partir... Quem me dera, quem me dera a noite de vez e quem me dera não ser mais. Quem me dera um pouco de paz no peito que trago tão cansado.
("...E eu choro, baixinho, a cada sol posto.../ Como dói cada lágrima que me lava o rosto.../ Quem me dera que lavasse também a minha alma...")
O poema que me lês no olhar não passa de uma metáfora para a minha dor, não vês? Não vês que por dentro continuo à espera de uma paz qualquer que me embale as mágoas, que me sossegue o lamento, eu não sou ninguém sem os fragmentos que me correm a alma com toda a calma da destruição, as minhas lágrimas continuam a cair, por dentro, não vês? Não sei mais que mão agarrar, que abraço esperar que me embale se já nem a minha Lua me serve de caminho... quem me guia? Quem me leva para onde eu ainda voava, quem me apaga os dias que me enchem a dor?
Nem tu me usas como escudo de mim própria, nem eu sei mais dos sonhos que podia ser; já não te tenho como refúgio da tempestade que sou eu, não sei mais como te olhar se já não me carregas o rosto.
Então eu fico, "só, só como nunca me vi", vou amarrando ao pulso cada dia que nunca acaba, cada sol que não se põe, cada lágrima que me corre a face que ninguém vê e desespero, calmamente, por mais uma noite que me esconda os dias já em vão... de vez...
("...Solto um grito empastado/ Em tristes restos de clemência/ - Foi mais um dia passado/ No limite da inexistência...")
Como queria um fim que me servisse, um adeus sem a palavra que me afoga a solidão, a noite, sem ti, já não é a mesma sombra e eu não sei como partir... Quem me dera, quem me dera a noite de vez e quem me dera não ser mais. Quem me dera um pouco de paz no peito que trago tão cansado.
("...E eu choro, baixinho, a cada sol posto.../ Como dói cada lágrima que me lava o rosto.../ Quem me dera que lavasse também a minha alma...")
O poema que me lês no olhar não passa de uma metáfora para a minha dor, não vês? Não vês que por dentro continuo à espera de uma paz qualquer que me embale as mágoas, que me sossegue o lamento, eu não sou ninguém sem os fragmentos que me correm a alma com toda a calma da destruição, as minhas lágrimas continuam a cair, por dentro, não vês? Não sei mais que mão agarrar, que abraço esperar que me embale se já nem a minha Lua me serve de caminho... quem me guia? Quem me leva para onde eu ainda voava, quem me apaga os dias que me enchem a dor?
Nem tu me usas como escudo de mim própria, nem eu sei mais dos sonhos que podia ser; já não te tenho como refúgio da tempestade que sou eu, não sei mais como te olhar se já não me carregas o rosto.
Então eu fico, "só, só como nunca me vi", vou amarrando ao pulso cada dia que nunca acaba, cada sol que não se põe, cada lágrima que me corre a face que ninguém vê e desespero, calmamente, por mais uma noite que me esconda os dias já em vão... de vez...
("...Solto um grito empastado/ Em tristes restos de clemência/ - Foi mais um dia passado/ No limite da inexistência...")
13.12.04
Saudade...
Saudade é uma palavra muito bonita.
Lembro-me de me dizeres uma vez que só existia em Português,
que não havia palavra que a traduzisse noutra língua,
e que por causa disso era tão difícil se definir o que é a saudade.
Como é que se esquece alguém que se amou? Sim. Será isto possível?
Será possível viver a vida de uma forma diferente
e retirar da consciência uma porção significativa da juventude?
Claro que não. Eu ainda me lembro de ti, eu ainda sonho contigo,
coisa que nunca sonhava vir a acontecer quando te tinha comigo.
Nesses tempos só tinha pesadelos, só tinha medo de te perder. E perdi. Ironia?
Sim. Sonho contigo. Sonho o teu calor, sonho o teu corpo abraçando-me no escuro,
sinto-te a respirar sem fôlego ao pé de mim, a soprar-me de leve no pescoço...
vejo-te tão perto e no entanto tão longe... Isto é saudade.
Vejo-te triste na hora da partida, a chorar sentada no chão,
com a dor toldada no teu rosto de primavera,
com o orgulho a impedir o pranto,
com a esperança que o tempo parasse e que o passado fosse a eternidade...
"Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que nos faz falta
e que nos custa mais lembrar que viver?
Quando alguém se vai embora de repente
como é que se faz para ficar?
Quando alguém morre, quando alguém se separa
- como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm que morrer, os amores de acabar.
As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros,
os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?
Devagar. É preciso esquecer devagar.
Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode-lhe ficar para sempre(...)"
Tenho saudades tuas, "totiça"...
*
The Crow
Lembro-me de me dizeres uma vez que só existia em Português,
que não havia palavra que a traduzisse noutra língua,
e que por causa disso era tão difícil se definir o que é a saudade.
Como é que se esquece alguém que se amou? Sim. Será isto possível?
Será possível viver a vida de uma forma diferente
e retirar da consciência uma porção significativa da juventude?
Claro que não. Eu ainda me lembro de ti, eu ainda sonho contigo,
coisa que nunca sonhava vir a acontecer quando te tinha comigo.
Nesses tempos só tinha pesadelos, só tinha medo de te perder. E perdi. Ironia?
Sim. Sonho contigo. Sonho o teu calor, sonho o teu corpo abraçando-me no escuro,
sinto-te a respirar sem fôlego ao pé de mim, a soprar-me de leve no pescoço...
vejo-te tão perto e no entanto tão longe... Isto é saudade.
Vejo-te triste na hora da partida, a chorar sentada no chão,
com a dor toldada no teu rosto de primavera,
com o orgulho a impedir o pranto,
com a esperança que o tempo parasse e que o passado fosse a eternidade...
"Como é que se esquece alguém que se ama?
Como é que se esquece alguém que nos faz falta
e que nos custa mais lembrar que viver?
Quando alguém se vai embora de repente
como é que se faz para ficar?
Quando alguém morre, quando alguém se separa
- como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm que morrer, os amores de acabar.
As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros,
os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece?
Devagar. É preciso esquecer devagar.
Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode-lhe ficar para sempre(...)"
Tenho saudades tuas, "totiça"...
*
The Crow
5.12.04
Ninguém ouve os silêncios que semeio sob o luar, aquele que me acolhe mas nunca o faz na verdade, ninguém me vê no olhar reflectido no meu rosto. Nem tu podes perceber a lentidão com que me apago, não há, decerto, ninguém que perceba a minha dor.
Solto a melodia que me acompanha alguns dos passos, os outros ficam para depois, ninguém tem pressa de conhecer o meu lamento, sabes que nunca gostei de ser tão igual a mim.
Solto outro grito, calado por tudo o que não sei se sou, como queria ser só, como queria sermos sós, quem me dera o fim da música que me ecoa nos ouvidos, todos os dias que nunca acabam até hoje dão cabo de mim e ninguém sabe, nem tu... não vês que já não sei voar, todos os sonhos caíram e os sorrisos morrem assim? Não vês que eu não desisto, mas que não tenho mais espaço para carregar a minha dor? Não vês que nos dias de chuva já não me serves de sol nem de abraço nas noites frias...?
Eu quero saber de que fazemos os sonhos para que durem assim, quero os dias como as noites em que te tornas o meu mar, só eu sei onde me perco sem que ninguém me acorde mais. Deixa-me ficar, dá-me os meus cinco minutos de paz e eu não te digo nada, nem do tempo que perdi quando ainda sabia voar; deixa-me ficar... mas fica comigo, não vês que só tenho (sempre) lugar para ti, és tudo o que não pode sair do meu peito, até já eu me perdi...?
E eu grito-te aos ouvidos sem que nunca me ouças, peço-te, o tempo todo, que não me deixes cair (não ouves?), eu sei que sou sempre eu mas eu já não sei ser sem ti, pega-me ao colo e ao silêncio que desfio sob o luar mesmo se não o ouvires, beija-me o olhar e seca-me as lágrimas com um toque, sopra para longe as palavras que me são tudo (não quero pensar), é um voo sem querer aquele que faz o meu lamento; tira-me daqui, um dia destes, volto a ser o que sempre quis, leva-me a voar de vez, ou apenas outra vez...
Solto a melodia que me acompanha alguns dos passos, os outros ficam para depois, ninguém tem pressa de conhecer o meu lamento, sabes que nunca gostei de ser tão igual a mim.
Solto outro grito, calado por tudo o que não sei se sou, como queria ser só, como queria sermos sós, quem me dera o fim da música que me ecoa nos ouvidos, todos os dias que nunca acabam até hoje dão cabo de mim e ninguém sabe, nem tu... não vês que já não sei voar, todos os sonhos caíram e os sorrisos morrem assim? Não vês que eu não desisto, mas que não tenho mais espaço para carregar a minha dor? Não vês que nos dias de chuva já não me serves de sol nem de abraço nas noites frias...?
Eu quero saber de que fazemos os sonhos para que durem assim, quero os dias como as noites em que te tornas o meu mar, só eu sei onde me perco sem que ninguém me acorde mais. Deixa-me ficar, dá-me os meus cinco minutos de paz e eu não te digo nada, nem do tempo que perdi quando ainda sabia voar; deixa-me ficar... mas fica comigo, não vês que só tenho (sempre) lugar para ti, és tudo o que não pode sair do meu peito, até já eu me perdi...?
E eu grito-te aos ouvidos sem que nunca me ouças, peço-te, o tempo todo, que não me deixes cair (não ouves?), eu sei que sou sempre eu mas eu já não sei ser sem ti, pega-me ao colo e ao silêncio que desfio sob o luar mesmo se não o ouvires, beija-me o olhar e seca-me as lágrimas com um toque, sopra para longe as palavras que me são tudo (não quero pensar), é um voo sem querer aquele que faz o meu lamento; tira-me daqui, um dia destes, volto a ser o que sempre quis, leva-me a voar de vez, ou apenas outra vez...
3.12.04
Porém voltas...
Outra folha que rasgo a cada final,
A cada silêncio que largo num caderno
A dor que desfio sozinha é-me igual,
Mas tudo o que trago no peito é eterno
E eu sigo, levando o frio a cada passo,
A mágoa de viver que nunca me solta;
Comigo, só o caminho que traço,
O grito arrastado de outro dia sem volta
E eu choro, baixinho, a cada sol posto...
Como dói cada lágrima que me lava o rosto...
Quem me dera que lavasse também a minha alma...
Mas é tudo igual, sempre dia após dia
E eu tremo, perante a minha agonia
Porém voltas, e contigo um pouco de calma...
A cada silêncio que largo num caderno
A dor que desfio sozinha é-me igual,
Mas tudo o que trago no peito é eterno
E eu sigo, levando o frio a cada passo,
A mágoa de viver que nunca me solta;
Comigo, só o caminho que traço,
O grito arrastado de outro dia sem volta
E eu choro, baixinho, a cada sol posto...
Como dói cada lágrima que me lava o rosto...
Quem me dera que lavasse também a minha alma...
Mas é tudo igual, sempre dia após dia
E eu tremo, perante a minha agonia
Porém voltas, e contigo um pouco de calma...
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