6.5.08

Para ti, amor.

Hoje apetece-me escrever-te, amor. Apetece-me desenhar, letra por letra, o tanto que significas para mim. Contava-te tudo, se pudesse, mas ainda hoje as palavras não chegam - continuas a ser demais para o meu vocabulário, para qualquer poema, para qualquer verso de qualquer autor, porque nunca houve um amor assim. Costuma dizer-se que as coisas acontecem quando menos se espera. Tu aconteceste num dia de Verão, mesmo quando eu não esperava por ninguém, e o teu sorriso arrebatou-me a alma sem que eu pudesse (ou quisesse) evitar. Eu não te esperava, não esperava ninguém, muito menos alguém que conhecia há tanto tempo e que me mostrou, naquele Verão, uma parte de si que eu não sonhava existir em ninguém.
Lembro-me muitas vezes desse dia, do início de tudo, dos sorrisos que, de repente, me inundaram os dias, repletos de ti. Lembro-me do aperto no coração, do nó na garganta, das borboletas que me esvoaçavam no estômago sempre que se aproximava o momento em que ia ver-te. Começámos a namorar às escondidas, o que tornou tudo ainda mais interessante, o desejo de sentir os teus beijos era maior, de andar de mãos dadas contigo, de te abraçar sempre que não podia... Lembro-me dos olhares, os sinais que trocávamos sempre que havia alguém por perto e não nos podíamos tocar. E das desculpas que inventávamos para ficarmos só os dois. Lembro-me também, perfeitamente, de como adorei ir-te conhecendo, de como cada parte que ia descobrindo me fazia sorrir mais e mais, do modo como ficava surpreendida com a quantidade de coisas novas que aprendia contigo e sobre ti, aquele que eu já conhecia há tanto tempo - e tão mal! E guardo ainda os textos que te escrevi na altura, ao longo dos primeiros meses, os textos cujas palavras, pela primeira vez, não eram lamentos arrastados pelas folhas.
Hoje escrevo, essencialmente, a tua ausência, amor. Escrevo a falta que me fazes a cada dia, o vazio que deixaste nas horas livres que agora não sei como ocupar. Deixei de usar relógio, porque as horas já não interessam, o meu tempo passou a ser contado pelos dias, os dias que passam e os que faltam para voltar a ver-te. O tempo ganhou um sentido diferente, de tão devagar que anda quando não estás. Agora é a tua ausência que me marca os dias, amor, em vez do sorriso com que antes os iluminavas. Eu sinto-te a falta, sinto a saudade a apertar-me o peito sempre que penso em ti, sempre que uma fotografia me traz o teu rosto ou uma canção, o teu olhar. Estás longe, mas no meu coração o teu lugar mantém-se, o canto que ocupaste sem me pedires licença e que encheste com a tua voz. Estás longe, mas estás por todo o lado, meu querido - no ar que respiro, nas paredes do meu quarto, nos lençóis da minha cama, nos meus lábios, nos segredos que eles já te contaram ao ouvido... Hoje quis escrever-te e a cada contorno da tua pele, lembrar cada momento que já vivemos juntos, cada pedaço do teu ser que venero como nunca o tinha feito com ninguém. Sinto a tua falta tanto quanto te desejo, meu amor, a ti, com tudo o que és, com toda a luz que te sai do olhar, com cada ruga que se forma à volta dos teus olhos quando sorris - desejo-te, com a força de cem beijos à chuva, com cada poro da minha pele, com cada canto do meu peito que grita o teu nome. Mesmo a quilómetros de distância, o teu perfume mantém-se, o toque da tua pele, o teu calor, a maneira como a tua mão segura a minha quando passeamos ou como os teus dedos me afastam o cabelo do rosto, continua tudo tão perto como se nunca tivesses partido, meu amor... A urgência de te sentir, agora, é tanta que não consigo parar de te escrever, como se as palavras que nunca me chegaram deixassem as tuas mãos mais perto do meu rosto. Deixa-me só dizer-te mais uma coisa, amor... Eu consigo esperar por ti. Impossível é esquecer-te, impossível é não me morares no coração, é não ter o tempo todo o gosto da tua boca nos meus lábios, é não ansiar pelo momento em que volto a sentir-me inteira. Impossível, meu amor, é não te sonhar no futuro que espero para os dois, o futuro em que a tua presença vai ser tão real... que não vou poder sequer fingir que não te sinto.

(para ti, amor... porque vais sempre arder-me no peito.)

23.4.08

Às vezes o mais difícil é começar. A deixar-te o rosto, a perder o teu rosto. Sinto-me agora mais só do que nunca. O vazio no meu peito é tão grande que quase consigo ouvir o eco da solidão que carrego comigo - ninguém é tão só como eu. São dias longos, estes que me varrem a alma e a deixam tão pequena que eu quase não caibo nela. Mais uma vez, as lágrimas correm-me o peito sem que alguém as veja, sem que alguém note que eu não estou por trás do olhar que carrego, e eu não percebo porque ninguém me vê chorar. Devia haver um aparelho para medir a dor, qualquer coisa que, a certo momento, dissesse: "Esta pessoa atingiu os seus limites de dor e, se ninguém a ajudar, em breve ela não vai conseguir manter-se viva.". Porque, certamente, a dor tem os seus limites - e, certamente, ninguém pode viver com tanta dor. E a minha é a maior de todas, a minha solidão é a mais imensa - porque mais ninguém é igual a mim. É mais do que uma dor, é angústia, uma angústia que me corre nas veias e que me percorre o corpo. Sinto-a nas pontas dos dedos e tento passá-la para o papel, mas é-me impossível fazê-lo - não há, no mundo inteiro, palavras que cheguem para a minha dor, e eu só espero que a noite venha e me adormeça outra vez. Não há dia cinzento tão pesado como o meu coração, nem cemitério tão vazio como o meu peito. Não há, sequer, melodia tão triste como os meus olhos.

15.4.08

Não sei porque ainda te penso. Não sei porque, de vez em quando, ainda recordo tudo o que tentei esquecer. Já passou mais de um ano, já não devias vaguear-me no pensamento, nem ecoar-me nos ouvidos, mas não me deixas em paz. Na verdade, há dias em que me passas tempo demais na cabeça. Sabes, apesar de não te querer pensar, há vezes em que quase sinto a falta dos tempos em que me desejavas. A improbabilidade de me quereres tornou tudo muito mais interessante, muito mais imprevisível, tornou-te muito mais difícil de resistir - e eu quase não te resisti. Foi por pouco que não cometi aquele que seria, provavelmente, um dos maiores erros da minha vida - cair-te nos braços. Fizeste-me roçar a insanidade de tanto que te pensei, de tanto que nos imaginei, de tanto que eu tremia quando te aproximavas de mim. Mentia se te dissesse que já não importas, se te jurasse que o teu toque já me é indiferente - passou mais de um ano, e continuas a exercer poder sobre mim. Angustias-me, acima de tudo. Com a ideia de tudo o que podíamos ter sido. Com as palavras manifestas de desejo que me dirigiste. Com os toques subtis e os olhares fatais. Como num romance erótico barato, mas um que nunca chegou a acontecer. Não me interpretes mal, ainda te odeio... mas às vezes custa-me não te desejar.
(Leio a má qualidade do que acabei de escrever. Fizeste-me deixar de escrever textos bonitos - é impossível que algo dirigido a ti me saia do coração. Fiz uma promessa, é tudo o que me importa. Estas palavras nunca me vão sair da boca, e as folhas em que escrevo, nunca as lerás. Tu hás-de sair-me do pensamento. Mas será que algum dia vou esquecer-te...?)

10.4.08

O dia está escuro e o meu peito também. Porque não o abres para ver?

5.4.08

Há dias em que ninguém nos vê a alma. O desalento aterra-nos nas mãos e não nos queremos mostrar a ninguém. Está tudo lá, tudo estampado no olhar, com a transparência quase urgente de quem quer pedir ajuda, e ninguém nos lê por dentro. É quase como ter o poema perfeito e não ter uma caneta à mão. Como ter o infinito à frente e não ter coragem para saltar. Há dias em que ninguém nos vê a alma. É como lançar os dados dez vezes seguidas e nunca nos sair seis. A correlação incompleta, a associação directa imperfeita - a relação quase linear entre o que nos bate no peito e o que nos corre no olhar. Podia ser perfeito, podia ser matemático - mas não é. Está tudo lá, tudo estampado no olhar, a letra das canções em sintonia com o desenho do rosto, o vagar dos dias, o pesar das noites. Ainda assim, ninguém nos desvenda a vontade (ter o Mundo aos nossos pés nunca foi suficiente). Quase que vivo, quase que dói. Quase.
Quem me dera, às vezes, que me vissem a alma. Quem sabe se assim, por uma vez, os dados não paravam no seis.

1.4.08

É desta.


The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire would make foolish people do
I never dreamed that i'd meet somebody like you
and i never dreamed that i'd lose somebody like you
No, i don't wanna fall in love...
No, i don't wanna fall in love...
with you.
What a wicked game to play
to make me feel this way
What a wicked thing to do
to let me dream of you
What a wicked thing to say
you never felt this way
What a wicked thing to do
To make me dream of you
No, i don't wanna fall in love...
No, i don't wanna fall in love...
with you.
(Chris Isaak)
*
Ainda hoje penso em ti. De vez em quando. Ocorres-me em pensamento quando as coisas não correm bem, foste um plano de fuga da realidade por algum tempo. Ainda hoje não te perdoo. O modo como mudaste tudo, entraste-me pela dignidade adentro, fiquei desprovida de qualquer vestígio de vontade própria que alguma vez tivera. Deitaste tudo por terra, tudo - as certezas que eu tinha, os moralismos que engolia a acenar com a cabeça juntamente com a outra metade do mundo - é claro que não, é claro que não faz sentido, como é que pode haver apenas sexo entre duas pessoas, não faz sentido nenhum, como é que uma atracção física, uma química, sei lá, chamem-lhe o que quiserem, como é que isso resulta em sexo, em algo tão íntimo (e, pelos vistos, igualmente mundano) como o sexo? Não pode ser, não faz sentido nenhum, nenhum, nenhum, que tipo de pessoas são essas? Tu mudaste tudo, e eu odeio-te por isso desde então. Fez agora um ano. Uma mensagem. Bastou algo tão simples como uma mensagem para eu passar a odiar-te tanto que te desejei - ou a desejar-te tanto que te odiei, que diferença faz? Desejei-te. Desejei-te todos os dias, a maior parte das noites, pensei em ti mais vezes do que devia. Amor platónico? Não. Desejo. Puro e duro. Como o nome o indica. Como o sexo (pelos vistos) deve ser. Desejo puramente, meramente (e sublinho, meramente) carnal. O teu corpo no meu, a minha pele encostada à tua, o suor, os beijos (ou nem tanto), as minhas mãos no teu peito, as tuas mãos no meu corpo, no meu cabelo, em cada centímetro da minha pele. Adivinhei-te o corpo, o toque, os gestos, a firmeza dos músculos que só vi através de uma ou outra t-shirt mais justa. Desejei tudo isto por tempo demais, sonhei com isso, pensei nisso antes de adormecer, ao acordar, ansiei por isso. Ainda penso nisso de vez em quando - quando as coisas correm mal e os pensamentos me escapam para onde não devem. De vez em quando. Bom, quase todos os dias. Ou todos os dias. Confesso. Mas já não me inundas a imaginação como antes - mais cedo ou mais tarde, tinhas de me sair de dentro do peito onde, na verdade, nunca ocupaste lugar (a não ser que haja, algures no nosso peito, um lugar reservado aos desejos meramente carnais). Trocaste-me as voltas, é tudo o que importa. E ainda hoje te odeio por isso. Tanto que quase já não te desejo. E desculpa lá qualquer coisa, mas tinha de te escrever para ver se, de uma vez por todas, me deixas os pensamentos em paz.

31.3.08

Mil segredos.

Trago-te no bolso mil segredos. Lembras-te de quando me levavas a voar? Tenho ainda na memória tudo o que me disseste ao ouvido, o sorriso que nem sequer tentei esquecer - o teu sorriso. Ainda tudo no meu peito, cada minuto de cada dia, cada promessa que soltámos, cada noite que voava quando estava nos teus braços. O tempo que nos surpreendeu, contra tudo o que conhecíamos, afinal vinte e quatro horas pareciam-nos vinte e quatro minutos, vinte e quatro dias quando a distância nos separava. Trago-te no bolso muito mais do que saudades. Tu fazias-me sonhar como eu nunca tinha sabido. O meu destino nas tuas mãos, lançavas os dados e eu tropeçava nas consequências da tua sorte - eu esperava que nos calhasse seis. Eu esperava a eternidade, mesmo com os mil segredos por contar, tu ias fazer-me falta como nada até ali o tinha feito, e estava certa. Por dentro, a minha cabeça continua no teu peito, o teu sorriso, tão aberto como antes, o teu olhar ainda colado ao meu rosto... as palavras a sairem-te dos lábios e do fundo da sinceridade. Éramos almas gémeas, tenho a certeza - mas os dados não jogaram a meu favor. Um dia destes, peço-te que os voltes a lançar. E se o resultado não for bom, já sabes - troco um bolso de segredos por outra mão cheia de sonhos. Como da primeira vez, vai valer a pena.

28.3.08

Com a força de cem beijos à chuva.

Amei-te com a força de cem beijos à chuva. Ainda me custa soltar as palavras que para ti nunca foram suficientes, deixaste um espaço em branco que palavra nenhuma pode ocupar. Que vou dizer-te, que tenho saudades tuas? Saudade é só uma palavra. Que hei-de esquecer-te? Antes lembrar-te... Prefiro lembrar-te. Prefiro trazer um pouco do que me davas a cada dia, e lembrar-te - lembrar-nos. Recordar a tua paz, a calma com que revestias os gestos, eu era capaz de te observar durante horas, admirava-te o sorriso e o olhar e a simplicidade que te traçava o rosto, não me esqueço de um só minuto corrido ao teu lado, ainda te guardo os lábios de encontro à minha face... O poder com que me tocavas sem sequer me tocares. E hoje, que a tua força já não me aquece os braços, que a tua voz já não me toca o coração, a tua ausência marca o tempo e a diferença de não estares. Como dizer-te que te amei, como mostrar-te que foste muito mais do que tudo até agora? Como tocar-te o rosto se a tua ausência me atou as mãos? Fazes-me falta aos dias, é muito mais do que saudades, tu não tiveste outra opção senão partir... Eu bem disse que não queria mais histórias de amor. Mas tu chegaste e nem me deste tempo para pensar, entraste-me pelo peito adentro e, agora, a vida é mais vazia do que tu a encontraste. Mil palavras na minha cabeça e nenhuma me chega para nos contar. Amei-te com a força de cem beijos à chuva... Amei-te cada traço, cada contorno, cada segundo, cada minuto da tua pele cujo cheiro ainda guardo. O teu riso ainda flutua nas minhas horas perdidas, ainda o teu rosto quando fecho os olhos, ainda e para sempre o calor do teu abraço, o conforto que era a minha cabeça no teu peito. As horas arrastam-se agora pelos dias, deixei de saber gerir o tempo no momento em que levaste contigo os nossos instantes, fazes-me falta em cada lugar que partilhámos, em cada plano que ficou por concretizar... Eras tudo. Amo-te, ainda... com a força de cem beijos à chuva.

9.5.07

Entre o tu e o nada

Às vezes, de tanto te pedir, desembrulho da tua boca um sorriso amarrotado como uma prenda já entregue. Um sorriso que nos sai da boca mas não nos cai da alma. Outras vezes, sem te pedir, sem aviso prévio como uma má notícia, só que boa, vem um sorriso vestido de gala e de dia, de muito dia e muita luz como um sol grande que faz um grande dia, um bom dia de verão, um bom dia em qualquer lugar e em qualquer estação. Sim, também há vezes, que mesmo sem te pedir, sem te ver, ou te ter presente, esse sorriso vem à memória como se a lembrança fosse uma coisa que se tivesse assim à mão de semear, e fica na memória e brinca nas recordações e renasce no presente de o ter na minha boca. É uma viagem tão boa. Nessas vezes, sem que tu saibas, sem que tu tenhas pedido, sem que sequer percebas, um outro sorriso principia. Não, não na boca, ou sim na boca, mas na boca da alma, onde o som não entra, onde o som não sai, mas onde a vontade perdura, onde o tempo não sabe o tempo que demora a passar como se a eternidade fosse coisa para se poder fazer. Por vezes, sim, somente por vezes, como se a raridade fosse coisa de valor, sem que tu saibas, um sorriso, um sorriso desde que teu, é apenas a grande diferença entre o tu e o nada.

16.5.06

Fugir do calor que me deste aos dias ou...

( Disse-te um dia para teres cuidado, "as palavras têm armadilhas" avisei-te, atiraste-me uma gargalhada, "os teus olhos também têm...")

Fugir do calor que me deste aos dias ou seguir o fio que trago no peito. Perder-me contigo, um sorriso na esquina, a lufada de ar fresco com que te antecipei, o primeiro beijo. Já me trazes tanto que as noites não me chegam para te sonhar - pior, muito pior, já não quero esquecer-te. Num segundo, voltaram as mãos, os segredos, o luar; num segundo, o teu rosto no meu pensamento, o teu nome nos lábios, a tua voz no meu ouvido, a ironia nas canções que já não queria ouvir. E o fundo dos meus olhos que nunca vês como não podes.
Acompanho-te o sorriso sem hesitar, a maioria do tempo não há nada a pôr em causa, perdes o olhar na monotonia dos meus traços e eu tropeço, como sempre, na distância das palavras. De novo, como nunca, o nó na garganta, como nunca os momentos são instantes contigo e sem ti eternidades. Mais uma vez, mais que uma vez, não sei de mim nos teus braços, desapareço no teu peito, adormeço em cada minuto da tua pele de encontro à minha.
Fugir do calor que me deste aos dias ou seguir o fio que trago no peito - o que fazer quando os olhos nos espelham a alma? Quando calamos o coração e ele se faz ouvir na mesma, quando fingimos - o que fazer? Eu não sei dizer-te outra coisa senão o amor, o teu rosto embarga-me a voz e o desejo de que fiques, só tu me ouves o silêncio com que encho cada olhar... Para além de mim, os dias apagaram-se, invariavelmente, invariavelmente o futuro soa a estranho, era de prever o fim das (des)ilusões - mas eu não me consigo evitar. Não é o destino, as tuas mãos formam coincidências que não se esquecem assim, o teu sorriso curva-se até ao infinito, a tua presença faz eco a quilómetros de distância. Não é perfeito, é mais do que isso - eu espero-te para sempre, como se o amanhã não chegasse e o ontem nunca tivesse existido.

17.3.06

A Armadilha do Silêncio

Agora é a minha vez. De agarrar as tuas mãos, de puxar as tua mãos, de ficar perdido às tuas mãos. De viver o tempo que se perdeu, que na distração dos dias fingiu não ver-nos. É a minha voz a dizer-te de repente, uma frase qualquer muito parecida com um estou aqui, e nesse repente tu também saberes que eu daqui nunca tinha saido e tinha sido os olhos das letras por onde te guiava. É como tu sabes, o silêncio é a maior das armadilhas, porque esconde todas as palavras.

13.1.06

para recordar..

"O que é que estás a fazer...?"
"- Estou a procurar nos teus olhos..."

(Abre-me a janela do teu sorriso para sempre...)

2.11.05

Queria só dizer-te as canções nos teus olhos. Queria que soubesses as promessas no teu rosto, a luz permanente que te sai do olhar - apareceste com o repente de outro dia qualquer. Gostava que soubesses da tua presença em cada canto, em cada espaço que não me atrevia a procurar com o olhar, do brilho no teu sorriso quando os teus lábios se abrem com a simplicidade esculpida no rosto em redor. Queria contar-te as canções que se espalham na noite, cantar-te as palavras espelhadas no céu, tentar procurar-te sinónimos que se encaixem fielmente no teu ar - és muito mais do que as palavras te podem dizer.
Evaporaste o conceito de perfeição que atirei para lá da meta do impossível. Há palavras para a perfeição, muitas palavras - palavras demais... - e as palavras não chegam para ti. Para ti só o silêncio, aquele que se habitua aos dedos que se cruzam, que nos sai dos olhares que se tocam e que despeja, a cada segundo, a latitude dos meus sorrisos de ti - para ti só o tempo, que nos viaja os corpos pelas horas marcadas à velocidade da luz, só o vento, só o mar. E é em vão que procuro explicações para a tua presença e o meu desejo de que permaneças, com a comodidade de um dia qualquer, é por nada que, por cima do ombro, as palavras dizem menos do que devia ouvir e é por tudo que preciso de te contar. Ainda não são estas as palavras certas que talvez nunca sejam suficientes - para ti, só o silêncio... - mas aperta-me a urgência que tenho de te falar do teu olhar. É-me urgente contar-te o amor, a subtileza nos teus gestos, a implosão que causam os contornos do teu corpo, contar-te o quase que é imperceptível a sombra no relevo dos teus traços. É-me urgente o tempo que não chega para te absorver cada sorriso, cada olhar, cada momento que, sem aviso, nos prende a respiração, segredar-te cada rua onde me levas pela mão, perguntar-te tudo aquilo a que me saibas responder. Quero que saibas, preciso, e foi preciso esconder a parte de mim que procurava para te poder encontrar - deixava de procurar um milhão de vezes mais para te (re)encontrar as mãos, o teu ar, a leveza do teu ar, para te (re)voltar a ver a redundância no luar, para um milhão de vezes mais tropeçares no meu caminho... Procuro as palavras certas mas para ti só um olhar... Para ti, só o silêncio que nos habita os dedos que se cruzam e onde dardejam, invisíveis, as explicações e lições dos meus sorrisos por ti.

22.10.05

Brilhaste naquela noite como nunca antes. Bastou o teu abraço - tocaste-me ao de leve a alma e, desde aí, a tua luz incomodou-me a ponta da desesperança que levantavas com o teu sorriso. Eu não lutei, confesso; não te impedi de me arrebatares da mornidão dos dias com um olhar, não te evitei as mãos quando as trouxeste até ao meu rosto, quando o teu toque começou a impor-se com a aparente subtileza das horas mornas. Eu não lutei, e fui fingindo que não percebia.
Estas não são as palavras certas... Queria dizer-te tudo, queria dizer-te tanto, contar-te a harmonia nos teus olhos e a força no teu olhar, a minha perplexidade perante o que, afinal, és - o aparente paradoxo, a simplicidade por trás do vulgar que finges ser, a pureza no teu rosto que me baixou os braços sem sequer o tentar.
Apareceste-me no caminho num dia qualquer, e foi com a simplicidade de um dia qualquer que me desarmaste e que esmagaste todas as minhas afirmações em prole das tais certezas - estas ainda não são as palavras certas. As palavras certas têm de te falar mais alto do que um olhar, têm de contar, sem armadilhas, as histórias e as estórias que os teus momentos me deixam no peito e de me arrancar da alma, gota a gota, a explicação derradeira para os meus sorrisos de ti. Eu só posso falar-te da volta que me deste aos dias, do inesperado que te sai dos lábios, da falta que a tua presença já faz, só posso falar-te do suficiente que é existires, da força da tua ausência quando não estás por perto, de como ainda não pousei desde que me levaste a voar e agradecer-te por teres tropeçado na minha vida num dia qualquer...
(Não... estas ainda não são as palavras certas.)

20.10.05

As palavras ainda me saem dos dedos com o tremor de quem foi apanhado de surpresa e não teve tempo sequer para pensar em probabilidades. Entraste sem bater e quase sem que eu notasse, sem sequer te esforçares desenhaste-me um sorriso no rosto que teima em crescer de cada vez que o meu olhar te encontra e foi com a simplicidade das coisas comuns que tornaste os meus dias mais curtos. Não me deixaste espaço para decidir, mesmo sem tentares as horam passaram a ser tuas, as noites também e eu não tive oportunidade para escolher...
Tu foste o anjo que me pôs de pé quando as minhas asas se esqueceram de que podiam voar, tu mostraste-me que o futuro podia ser agora, não me deste hipótese e eu não lutei contra as constantes aparições do teu rosto no meu pensamento. Ainda procuro as palavras certas, ainda não houve tempo para passar a tua luz para o papel, mas posso dizer-te que brilhas como nunca tinha visto ninguém brilhar, que é impossível não sorrir perante a força do teu sorriso contra o azul do céu no fundo, é inevitável a força que transmites com um olhar quase tão simples como tu, foi-me inevitável seguir os teus passos sem que tivesses de me dizer uma palavra. Ainda procuro as palavras certas - o que dizer de alguém que sempre que vemos é como se fosse a primeira vez, de alguém que nos leva a voar sem asas, que nos ensina algo diferente a cada dia, que nos fez voltar a sonhar, que é tão simples mas ao mesmo tempo tão pouco comum, que pede tão pouco mas tem sempre tanto para dar...? Não posso dizer-te mais, apenas que me completas, deste-me um novo sentido da realidade e mostraste-me um lado da vida que desconhecia, apenas posso dizer-te que cada dia contigo é uma lição aprendida e um sonho tornado realidade, que deste a volta por cima às certezas que eu tinha e que tu desfizeste, que ainda tento perceber como foi que entraste na minha vida tão rápido, sem pedires licença nem esperares que eu deixasse, fizeste-me dar o braço a torcer e talvez te tenha mesmo convidado a entrar... Perdi a noção do tempo desde que sorrio sempre que o meu olhar te encontra e agora já é tarde demais para não te ter na minha vida. Não posso dizer-te mais, apenas que me completas e, um dia, vou encontrar as palavras certas - até lá, procura nos meus olhos...

10.10.05

Apanhaste-me como quem sonha e eu não soube voar - perdi a conta às asas quebradas em prole de um futuro desigual, a melodia acutilante que o meu ode a qualquer dia soltava. É agora, que cada hora é sem ti, que me corre nas veias a metátese de outro dia qualquer e só agora, sem ti, o tempo toca nos segredos que não me apresso a desvendar.
Foste tu. Foste tu que me aqueceste os dias, aparentemente, quando a tua luz nem bastava para ti. Foste tu que me desenhaste as estrelas no infinito, mas elas já estavam lá antes. Foste tu que me fechaste os olhos ao mundo mas que acabaste por me tirar da cabeça a ideia das histórias de amor, fizeste-me perder tantas vezes mas eu acabei por ganhar, tantas vezes me abraçaste mas, afinal, eu não preciso de ti. E se um dia me tapaste o Sol para que só pudesse ver as estrelas, hoje a tua voz já não me diz nada, as tuas mãos já não me roçam o desespero e os teus lábios já não soltam, nunca mais, as estórias que me costumavam contar.*

9.9.05

Olho para o céu e tudo o que foste começa a tornar-se num rasto. Eu podia ter-te sorrido, podia ter-te deixado ficar, já eram tantas as vezes em que quase partias, era só mais uma vez agarrar as tuas mãos... mas eu nunca voei contigo.
Consumiste-me o tempo que te entreguei em mãos como se fosse teu. A tua sede de te amar, os momentos, os laços cortados com a pressa de uma palavra rasgada ao vento - eu quis ver-me livre de ti assim que me foi possível. E se foram muitas as vezes em que te disse que te amava para sempre, hoje digo-te que o amor não tem de ser eterno, que nós é que nos iludimos, digo-te que há outro sorriso no lugar do teu e que, afinal, eu não precisava de ti... E eu avisei-te tantas vezes.
Comparei-te ao eterno mas também o eterno se perde com o tempo, é dura a escolha que fazemos do destino, eu escolhi nunca mais te querer a meu lado - vezes demais a vida me doeu por tua causa... E se, por vezes, me fizeste sorrir e o teu riso ainda ecoa na distância do caminho, foram muitas as vezes em que escondi de ti as lágrimas que desfiava ao luar - eu disse-te que gritava por dentro o tempo todo... quantas vezes? Tu nunca acreditaste... Então eu desisti, como se desiste de um jogo antes de se perder, larguei a tua mão, com o pouco que me restava, e fiz o meu caminho, mesmo sem saber em que esquinas virar - qualquer rua é melhor do que a que corri contigo. E porque já não me és quase nada senão pena, o teu rosto longe de mim como nunca, já não me serves de sol nos dias de chuva nem de abraço nas noites frias... eu já não preciso de ti como sempre pensei que precisava, afinal não eras tudo, o teu nome no meu peito nunca mais - avisei-te tantas vezes... Adeus.

6.9.05

Hoje as tuas palavras não se guardam na facilidade com que eu as ouvia, por vezes. Tu já não me indicas o caminho errado a seguir e eu já não preciso da tua luz que, afinal, acabou por se apagar - a ironia faz-me rir de tudo o que fomos um dia. Eu amei-te demais e tu deixaste, pegavas-me na mão e sussurravas-me segredos que eu decorava como lições, eras tudo e eu, sem ti, não sabia o que fazer ou que caminho seguir de encontro ao meu sorriso... e tu levavas-me pelo caminho errado.
Tracejaste o meu tempo com a tua forma de amar. A subtileza do teu sorriso sempre lá, as tuas mãos nas minhas, a minha cabeça no teu peito, a tua presença aguda mesmo quando não estavas - que dirias agora, se soubesses dos meus dedos a percorrerem outro sorriso no lugar do teu? (Já não é o teu rosto que percorro com o olhar...) E tu não sabes, mas a vida já não me dói como quando eras tu que me deixavas respirar. Aos poucos vou esquecendo os contornos do teu corpo, os teus traços desvanecem-se com o que foi o teu sorriso, afinal não preciso de ti para ser, a tua mão no meu ombro, como antes, nunca mais... Eu disse-te que era a última vez.

21.8.05

Angustia-me a pressa dos dias com que te apago do coração. A pontaria das palavras, o tiro certeiro com que as soltavas, uma a uma, nas minhas mãos, a destreza com que me desfizeste e a quase tudo o que era teu. O último roçar de lábios que me soube a pouco mais do que despedida - o beijo amargo que, a pouco e pouco, diz adeus.
Esta é a última vez. Nunca mais o teu nome no meu peito, nunca mais. Nunca mais a tua luz no meu olhar, é a última vez que te carrego o rosto nos braços, a tua mão na minha, nunca mais. Eu não vou voltar atrás, é o fim dos segredos, os teus dedos, o meu céu, a Lua que era minha e acabou por se perder (eu vou aprender a andar sem que me leves pela mão.). E não quero mais canções que me tragam o teu tempo, foram demais as poucas vezes que voltaste, as horas mortas que trouxeram pouco mais do que indiferença, os momentos - as virtudes do amor que se cruzaram num último beco sem saída... Eu não sei de ti e, embora a tua ausência ainda me sufoque a alma, por dentro, é o fim das chances que sei que não vão voltar, as esquinas à noite já não guardam os teus passos, a chuva já não me traz restos de nós e eu sei que o meu tempo, agora, é todo meu. E porque foram demais as vezes em que desfizeste o que deixaste de bom, porque vezes demais escolheste não me olhar ainda que eu ficasse à tua frente, eu vou fingir que te esqueci e sorrir enquanto me for possível, vou ignorar a tua boca e tudo o que me traga a tua voz e guardar apenas o último roçar de lábios que me soube a pouco mais do que despedida...

31.7.05

Acordar sem o teu nome nos meus ouvidos. O frio do céu cinzento traz-me de volta a minha mão no teu peito, as horas que perdemos a ver o tempo passar - e eu insisto nas histórias insípidas que se perdem por amor. Insisto nas linhas curvadas do meu rosto (eu não vou parar de sorrir...), insisto nos lábios que se tocavam em momentos menos mornos, nas linhas em que escrevo e onde o teu nome já não me sai dos dedos. E aposto agora nos dias, porque as noites já não são nossas nem se perdem no teu tom.
Não quero mais histórias de amor. Desisto das canções desesperadas, as melodias que faziam crer o elixir da vida nos teus olhos - eu precisei demais de ti. Eu amei-te demais, tanto quanto sei, não se ama o outro mais do que a nós próprios. O frio do céu cinzento traz-me o nosso tempo de volta e eu insisto, porque o tempo que tenho agora é todo meu e não dos finais felizes que já nos tinha escrito - dos finais felizes, nunca mais.
Porque eu esqueci-me das minhas mãos enquanto me agarrava às tuas, ignorei a minha alma para abraçar a tua sem querer saber de mais nada. Porque foste as minhas noites e tudo tempo demais. Mas, agora que não quero mais histórias de amor, que o eco das canções já não me traz os sorrisos patetas que perdi, que as noites já não me servem para sonhar contigo, acordar sem o teu nome nos meus ouvidos é a melhor melodia que posso ouvir, a vida à minha frente sem nós nem mais nada que me consuma o sorriso - e eu não vou parar de sorrir.